segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"O assassino era o escriba" de Paulo Leminski

Veja um trecho desse artigo de Beth Brait: há uma análise do texto "O assassino era o escriba", de Paulo Leminski.  Vale a pena ler o artigo completo aqui .
  

Apresento apenas um trecho para quem fez o concurso da Prefeitura de Belo Horizonte para professor de Português reconhecer a semelhança entre o que está presente nesse artigo e algumas questões da prova específica aplicada domingo, dia 22 de fevereiro de 2011. 


Estudos lingüísticos e estudos literários: fronteiras na teoria e na vida


Beth Brait
(PUC-SP/USP/CNPq)


O que carateriza a comunicação estética é o fato de que ela é totalmente absorvida na criação de uma obra de arte, e nas suas contínuas re-criações por meio da cocriação dos contempladores, e não requer nenhum outro tipo de objetivação. Mas, desnecessário dizer, esta forma única de comunicação não existe isoladamente; ela participa do fluxo unitário da vida social, ela reflete a base econômica comum, e ela se envolve em interação e troca com outras formas de comunicação.
(Bakhtin/Voloshinov)



Toda língua são rastros de velho mistério.
                                       (Guimarães Rosa)

A literatura antecipa sempre a vida. Ela não a copia em nada, mas a molda segundo seus fins.
(Oscar Wilde)

A língua é o poema original por meio do qual um povo diz o ser. Inversamente, a grande poesia, aquela pela qual um povo entra na história, é aquilo que começa a dar figura à sua língua
(Hiedegger)
Devo dizer que a idéia de poder refletir sobre as confluências existentes entre estudos lingüísticos e estudos literários me é extremamente simpática e representa uma oportunidade de, por meio de um recorte, de uma metonímia, expor uma linha de trabalho que tem caracterizado minha carreira, a qual tem se sido pautada justamente pelas tentativas de explicitar essas confluências, trabalhar com essas confluências e demonstrar quanto a interface entre essas duas áreas do conhecimento pode iluminar cada uma delas, sem arranhar identidades.
 
Para poder dar conta de alguns aspectos dessa confluência, considerei a oportunidade de observar a ausência da propagada dicotomia existente entre língua e literatura, entre linguagem e vida, entre uso e criatividade, entre gramática e estilística, a partir de textos literários, poéticos, que pudessem surpreender, pela temática e/ou pela organização, a confluência entre as duas instâncias de expressão e conhecimento.
 
O primeiro deles foi motivado por uma ironia poética, magistralmente elaborada por Paulo Leminski (1983: 144), que se revela um misto de amor e ódio, reverência e desprezo, impulsos vitais e mortais, pulsão ambígua no embate com a sintaxe, seu ensino, seus protagonistas e sua produtividade. Trata-se do poema abaixo transcrito.
 
                  O assassino era o escriba
 
Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito
Inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular com um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conetivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

A primeira pergunta que se pode fazer, diante desse poema, é por que e de que achamos graça, e, ainda, por que ele tem para nós esse efeito inusitado de humor? Por que é que simpatizamos de imediato com ele, com o que ele diz, como se estivéssemos um pouco diante de um espelho? Um espelho que, além de refletir nossa face, realiza, por assim dizer, ainda que no plano da ficção, um forte desejo, que tantas vezes sentimos que é o de matar o nosso professor de análise sintática. Como é que o poeta mobilizou sentimentos característicos da vivência, da experiência da grande maioria dos letrados?
 
Para respondermos a essas perguntas, temos de olhar com muita atenção para o poema. Olhar de perto, com lupa. E aí, essa primeira leitura, que é sempre lúdica, desinteressada, dá lugar a uma outra. Essa segunda, bem mais desconfiada e detalhista, começa a revelar a forma como o poeta concretiza sua visão não apenas da sintaxe, mas especialmente de seu ensino, explorando de forma ambígua um imaginário em que nomenclatura, a metalinguagem, se apresenta como o motivo de tortura, morte e, curiosamente, subversão e criatividade. Comecemos por alguns conhecimentos prévios básicos, que podemos mobilizar para tentar descrever os recursos usados pelo poeta para causar esses efeitos de sentido.
 
Estamos diante de um poema, e sabemos disso pela própria organização gráfica: há versos, que diferentemente de um texto em prosa, têm as linhas interrompidas, ou mais precisamente, acabadas em pontos estratégicos que configuram um ritmo, provocam rimas, etc. É importante saber isso? É. É importante porque vamos nos comportar, ainda que inconscientemente, de maneira diferente da que nos comportamos diante de um romance, diante de um artigo de jornal, diante de uma propaganda, diante de uma página da gramática da língua portuguesa ou de outra língua. No momento em que o falante, o escrevente, o autor, qualquer um de nós, escolhe um plano de expressão específico para a mensagem, não apenas configura a mensagem, articulando forma e conteúdo, mas também prevê e constitui o seu leitor.
 
Nesse caso, por exemplo, já estamos constituídos pelo texto de Leminski. Não como sujeitos empíricos, indivíduos, mas, num primeiro momento, como alunos, como aprendizes submetidos a um velho e tradicional padrão de análise sintática. E é isso que nos inclui de imediato no poema. E como o poeta introduz isso no texto? De várias maneiras. Uma delas, e talvez a mais forte,é por meio do léxico. O mesmo léxico que nos torturou nas aulas de análise sintática, que é de fato o pivô da aversão dos estudantes, aqui aparece numa nova organização, numa nova sintaxe, que, em lugar de causar horror, causa o riso, mostra uma face diferente. Expressões e termos característicos do registro da análise sintática estão aqui articulados de forma nova, inesperada, como qualificadores da maneira de ser e das ações do professor, causando uma divertida ambigüidade, como é o caso de “sujeito inexistente”, “pleonasmo”, “bitransitiva”, “artigo indefinido” etc.
 
Além desse poderoso e criativo recurso de mobilização do léxico a partir de novas possibilidades sintáticas, enriquecendo o plano semântico, o poeta lança mão, também, de uma outra dimensão do nosso conhecimento, da nossa memória discursiva. O poema é organizado de forma narrativa, conta uma história, usando para isso uma estrutura canônica, ou seja, tão tradicional quanto a análise sintática, e que no caso é a narrativa policial, de suspense, de mistério. Por esse recurso, ele nos institui como leitores e leitores de um determinado tipo. Desde o título, sabemos que se trata desse tipo de narrativa. O termo “assassino” não deixa dúvidas. O termo “escriba”, por sua vez, atrai duplamente a atenção do leitor: primeiro porque está designando o assassino, o que nos atrai para o texto, para saber quem foi assassinado e porque, como em toda narrativa policial, de suspense; segundo, a própria palavra escrita, por não ser um termo corrente, de uso comum, já representa um certo mistério em termos de significação. Segundo o Aurélio, escriba significa 1. doutor da lei, entre os judeus; 2. Oficial das antigas chancelarias ou secretarias; 3. Aquele que exercia a profissão de copiar manuscritos, muitas vezes mediante ditado; copista; 4. Pop. escrevinhador [escritor sem ou de muito pouco merecimento; escrevinhadeiro, raboscador, borrador]. Lendo o poema como um todo e voltando ao título, poderemos escolher um ou mais desses significados, identificando o porquê de sua utilização no poema.
 
E como esse poema quase prosa, espécie de confissão espontânea organiza essa narrativa?
 
Um narrador em primeira pessoa descreve, nos primeiros sete versos, um sujeito, sua função, suas ações dentro dessa função, caracterizando-o, ao mesmo tempo, como professor e torturador. Pelo pronome possessivo “meu” e pela designação professor, ficamos sabendo, de imediato, que o narrador se apresenta como aluno, como aprendiz, como torturado. Do oitavo ao décimo sexto verso, o narrador resume os fracassos desse sujeito. No último verso, uma espécie de flash, tudo se esclarece, a partir da recomposição da cena do assassinato, exatamente como na cena principal de uma narrativa de suspense: o assassino é o aluno, o assassinado é o professor, a arma do crime é um “objeto direto” e o motivo está mais que justificado.
 
Se por um lado toda graça vem dessa organização léxico-sintática – /casou-se com uma regência/, /e ela era bitransitiva/; /acharam um artigo indefinido em sua bagagem/, /matei-o com um objeto direto na cabeça/, a estrutura narrativa também colabora para promover a sintaxe, enquanto organização frasal e textual, desmascarando o professor e o aluno. Se observarmos com cuidado, a sintaxe é o verdadeiro tema do poema. Realizada com maestria e criatividade, ela é a estrela na medida em que desvenda a natureza dos protagonistas. O professor é apresentado, da perspectiva do aluno, desde o começo, como “sujeito inexistente”, isto é, sem existência, fato que se concretiza em vários níveis, ao longo do poema: como professor, no plano das relações pessoais e, por último, como objeto do crime. Aliás, objeto que se realiza sintaticamente, na medida em que de nome ele passa a pronome objeto do verbo matar: matei-o. O aluno, por sua vez, revela-se como o escriba do título, isto é, agente que, apesar de torturado pelo professor, domina a sintaxe e é capaz de manejá-la com destreza e criatividade. Ele é o sujeito ativo.
 
Nessa leitura, portanto, o poema, em lugar de ser um panfleto contra a sintaxe, é uma homenagem à língua, à sua riqueza, à possibilidade de mobilizar termos cristalizados em situações e contextos diferentes do da gramática tradicional, de tal forma que eles estejam revitalizados e se mostrem bem mais ricos do que imagina nossa traumática experiência de alunos. Ao subverter o uso tradicional dos termos, sem ferir a sintaxe, mas ao contrário, exibindo-a positivamente, o aluno mata o pai/professor, mas revela-se o escriba/filho.
[...]
Para finalizar, é preciso dizer que esse pequeno elenco de reflexões literárias sobre a língua, sobre uso e criatividade, sobre linguagem e vida, leva ao reconhecimento de inevitáveis confluências existentes entre estudos lingüísticos e literários, ainda que aqui não se tenha feito uma teorização. Esse caminho implica olhar para a materialidade verbal e extraverbal constitutivas de uma enunciação, de um enunciado concreto, de forma a reinstaurar a discussão a respeito da estilística e da gramática/lingüística, assim como de suas fluidas fronteiras. Mas esse é assunto para uma outra conversa.


Referências bibliográficas
 
ANDRADE, Oswald (1972) Obras completas - Poesias reunidas. 3 ed. Rio, Civilização Brasileira/MEC. Vol.VII.
 
LEMINSKI (1983) Caprichos & relaxos. São Paulo, Brasiliense.
 
PAIS, José Paulo (1986) Um por todos (poesia reunida) São Paulo, Brasiliense.
 
ROSA, João Guimarães (1969) “Hipotrélico”. In: Tutaméia (Terceiras estórias). 3 ed. Rio, José Olympio. pp. 64-69)
 
ROSA, João Guimarães (1970) “Uns índios (sua fala)”. In: Ave, palavra. Rio, José Olympio. pp. 88-90.

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